# Coração Comestível: Abril 2012

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sábado, 7 de abril de 2012

Peixes: Sobre Labirintos




E de tantos encantos perdidos, tantas promessas desfeitas, algo foi feito e fez sentido, a falta de razão que há no tempo e na impossibilidade de medir sentimentos pelos ponteiros do relógio.
E tendo uma coragem imensa de ser insana, me deixo perder nos labirintos que eu mesma construí, e faço do fim um começo e descubro ser eu mesma tudo aquilo que me impede e tudo aquilo que me faz seguir.
Peixes é o último signo, enquanto as arianas são as crianças do zodíaco, O Louco do tarô, as piscianas são as anciãs, O Ermitão do tarô de Marselha.
Elas são o fim, são a porta que liga o mundo visto ao invisível, e por isso, donas de uma sensibilidade mística e de um sexto sentido apurado.
Piscianas sentem o mundo de dentro para fora.
Gosto dos amargos e dos doces, viciada no picante e no quente fervendo.
Sei que às vezes parece que me falta um coração, mas na verdade me sobra tanto dele que nunca soube dizer não ao amor, ou melhor, não disse não ao amor quando ele sentido por mim como um reencontro, deu sentido a todas as cicatrizes que carrego.
Há algo de água nas piscianas, no jeito de olhar e acolher, no encanto perturbador dessas mulheres que são calmaria e tempestade, porque a água é prazer e dor. Elas são calmas e perigosas, como um mar no fim da tarde.
Peixes é o signo que melhor mescla doses de crueldade e de afeto, elas amam com dedicação, afeto e entrega, se doam, mas cobram ter de volta o reconhecimento das renúncias e sacrifícios que fazem. Piscianas amam e precisam ser amadas.
Elas são o útero da mãe e os braços da morte, o sofrimento de uma mulher de peixes é banhado nas águas de suas lágrimas, o drama de peixes é tão profundo e intenso que todos sofrem junto com elas.
Elas são doces e violentas, rio e mar.
Pois sou feita dos sentimentos que carrego e das dúvidas que possuo, vivo e vivi cada um deles com a verdade que trago nos olhos.
Não preciso de uma turma de amigos, preciso de amigos que sejam para mim o que sou para eles, uma fonte, uma ponte, uma estrada, uma raiz.
Que sejam tantos que conte sem problemas nos dedos, mas que os tendo eu nunca seja solidão.
Raramente piscianas sentem prazer nas multidões, elas carregam um mundo inteiro dentro delas, e por isso, precisam de momentos de solidão para conseguir ter praz. Sem isso elas se tornam cansadas, tristes, sentem que nada mais faz sentido, e como já disse, o drama dessas mulheres faz novelas mexicanas serem cult como filmes franceses.
Amigos e família para ela são a base que as sustenta, entretanto, elas não são aquelas que cultivam, que mandam mensagens e fazem reuniões para os ter em volta, piscianas são solitárias, preferem ser a casa que abriga, elas são a mãe e amiga que sempre terá uma cama para te acolher nas noites frias, dificilmente serão o convite para o cinema ou a conversa longa ao telefone.
Não preciso de uma bandeira inteira, quero a bandeira rasgada da luta, desbotada pelos suores e dias caminhando embaixo do sol.
Não preciso de um emprego que pague pela minha alma, preciso de um que faça minha alma ser grata por ele.
A lógica de peixes, de que algo precisa ser feito para tornar o mundo que as cerca melhor, faz delas sempre engajadas em alguma causa, elas gostam da sensação de fazer o bem, isso talvez venha da certeza que carregam que somos muito mais que matéria, que somos alma.
Por isso trabalhar para elas, é mais que ganhar dinheiro, é investir o tempo em algo que traga prazer e que as faça sentir importantes no mundo, piscianas sentem o tempo todo que estão cumprindo alguma missão.
E a alma artística dessas mulheres será sempre notada, mesmo que seja na maneira cor de rosa em que olham para o mundo.
Piscianas são fãs de doces ilusões.
Não preciso de uma mulher que seja perfeita, quero ter a que seja o que vejo quando fecho os olhos, e quando dormir, que  minhas mãos procurem pela proteção que só seus braços sejam capazes de me oferecer.
Ela não será jamais a princesa dos contos de fada, mas será a mulher que habita meu medo de cair, que visita meus pensamentos e me faz desejar ser quem sou, simplesmente por ser amada por ela.
Nada de perfeição, nada de hotéis caros em Paris, nada de cenas de filme de mulheres com bolsas mais caras que um apartamento, sim para o café da manhã com filé e mussarela, a cerveja gelada na cozinha aos domingos, aos beijos dados entre sorrisos e os olhares que conversam em silêncio.
As piscianas são instáveis como a água que as cerca, podem se perder nos campos da depressão ou dançar com uma alegria viciante. E muitas vezes parecem ser extremamente manipuláveis, e são, afinal, as filhas de Netuno possuem a correnteza nas veias, e se deixam ser levadas por algo que ultrapassa a razão, é a natureza dessas mulheres que precisam crer para ver.
Elas cuidam, elas protegem, e muitas vezes se esquecem de cuidar das próprias feridas, acreditam ser imortais, mesmo tendo a fragilidade de uma borboleta saindo do casulo.
Me amar é fácil, me odiar também, mas me entender, só quem sente é capaz, e isso, eu sei, infelizmente, é para poucos.



Por Celle Fonseca - PL